Doenças autoimunes formam um espectro de condições em que o sistema imunológico, originalmente programado para proteger, passa a atacar estruturas do próprio corpo. São mais de 80 doenças já classificadas nessa categoria, e a incidência não para de crescer — especialmente entre mulheres.
Segundo a American Autoimmune Related Diseases Association (AARDA), 78% dos casos de autoimunidade afetam o sexo feminino. Essa estatística não é casual: ela aponta para um fenômeno que envolve não apenas imunologia, mas também genética, neuroendocrinologia, saúde mental, estilo de vida e fatores sociais.
⸻
A tríade invisível: estresse, emoção e resposta imune
Diversos estudos associam o surgimento ou agravamento de doenças autoimunes a eventos traumáticos, estressores intensos ou estados emocionais prolongados. O eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA) e o sistema nervoso autônomo modulam diretamente a resposta inflamatória — e, em casos de estresse crônico, perpetuam um estado de alerta que desregula o sistema imune.
Mulheres, social e biologicamente, tendem a uma maior reatividade ao estresse emocional. A sobrecarga mental, a multiplicidade de papéis, a violência simbólica (ou concreta), as desigualdades de gênero e a dificuldade de escuta clínica contribuem para um contexto favorável a diversos gatilhos ao estresse agudo e crônico, nos quais a imunidade pode se desorganizar de formas diversas, a depender da vulnerabilidade individual e do contexto vivencial.
⸻
Cromossomo X e predisposição genética
Mulheres carregam dois cromossomos X, enquanto homens possuem apenas um. O X contém múltiplos genes envolvidos na regulação imunológica. Essa duplicidade pode ser protetora em alguns contextos, mas, paradoxalmente, também está associada a maior susceptibilidade à autoimunidade. O fenômeno de skewed X-inactivation (inativação desigual do X) tem sido estudado como um possível gatilho genético para essas disfunções, principalmente em doenças como lúpus, esclerose múltipla e tiroidites autoimunes.
⸻
Doenças que se somam — e se confundem
Entre as principais condições autoimunes com prevalência em mulheres estão:
•Tireoidite de Hashimoto
Fadiga, intolerância ao frio, alterações menstruais, ganho de peso e oscilações de humor.
•Esclerose Múltipla
Afeta o sistema nervoso central, gerando déficits motores e sensoriais em surtos.
•Artrite Reumatoide
Inflamação articular progressiva, que pode comprometer a funcionalidade e causar dor crônica.
•Doenças intestinais autoimunes e disabsortivas
Incluem a Doença Celíaca, mas também quadros mais sutis que cursam com má absorção de nutrientes e inflamação de baixo grau.
•Fibromialgia
Embora não seja uma condição autoimune, cursa com dor crônica, fadiga, distúrbios do sono e sobreposição sintomática significativa — além de altíssima prevalência em mulheres.
⸻
Nutrição, intestino e inflamação silenciosa
A conexão entre imunidade e intestino já não é teoria: é evidência. Cerca de 70% do sistema imune está presente na mucosa gastrointestinal. Alimentações pró-inflamatórias (ultraprocessados, glúten e caseína em indivíduos sensíveis, excesso de açúcares e gorduras oxidadas) são fatores de risco reconhecidos.
Deficiências de micronutrientes como vitamina D, ferro, zinco, selênio, magnésio e vitaminas do complexo B agravam a permeabilidade intestinal, gerando leaky gut — condição associada a diversas doenças autoimunes.
A disbiose intestinal (desequilíbrio da microbiota) também está na base da inflamação crônica e do desbalanço entre células pró e anti-inflamatórias.
⸻
Sedentarismo e privação de sono: gatilhos ignorados?
A falta de movimento contribui para resistência insulínica, inflamação e perda de massa muscular — o que impacta negativamente a regulação imunometabólica. Já o sono fragmentado ou de má qualidade afeta a produção de citocinas e altera ritmos circadianos fundamentais para o reparo celular.
Mulheres em fase produtiva, sobretudo mães, profissionais e cuidadoras, frequentemente negligenciam seu descanso em função de demandas externas — e pagam esse preço biologicamente.
⸻
O cuidado que restaura: abordagem integrativa e personalizada
O manejo da autoimunidade vai além da prescrição de imunossupressores. É necessário restaurar os sistemas afetados: digestivo, neurológico, hormonal, emocional e energético. A medicina integrativa permite identificar fatores desencadeantes, modular a inflamação, reequilibrar o organismo e, principalmente, respeitar o tempo de cada mulher.
Uma escuta qualificada é o primeiro passo para entender onde o corpo está pedindo trégua.
⸻
Conclusão
A explosão das doenças autoimunes entre mulheres é um reflexo de múltiplos desequilíbrios: internos, ambientais e sociais. É um fenômeno de saúde pública que precisa ser enfrentado com ciência, sensibilidade e uma nova ética do cuidado.
Se você está enfrentando sintomas persistentes e difusos, ou se sente que seu corpo tem falado de formas que ninguém consegue escutar, procure uma abordagem clínica que compreenda esses sinais.
A clínica contemporânea precisa acolher não apenas exames, mas as histórias que os antecedem — e os contextos que moldam cada adoecimento.
⸻
Dra. Luiza Savietto, médica | CRM 146610
Clínica Geral | Medicina Integrativa | Saúde da Mulher
