A relação entre alimentos ingeridos e as emoções / humor é mais profunda do que se imaginava há algumas décadas. Estudos recentes demonstram que padrões alimentares influenciam diretamente a saúde mental, impactando níveis de ansiedade, depressão, qualidade do sono, energia vital e função cognitiva. Essa interação não é unidirecional: estados emocionais também afetam nossas escolhas alimentares, criando um ciclo que pode ser virtuoso ou disfuncional.

Neurotransmissores, nutrientes e humor

A síntese de neurotransmissores como serotonina, dopamina e GABA depende de nutrientes essenciais presentes na alimentação. Triptofano, tirosina, magnésio, zinco, vitaminas do complexo B (especialmente B6, B9 e B12), ômega-3 e ferro estão entre os principais compostos que regulam o humor e a estabilidade emocional. A escassez ou baixa biodisponibilidade desses nutrientes pode contribuir para sintomas como irritabilidade, cansaço mental, ansiedade, insônia e oscilações de humor.

Inflamação e transtornos psiquiátricos

A literatura científica tem apontado a inflamação sistêmica de baixo grau como um dos fatores envolvidos na gênese de transtornos como depressão, ansiedade generalizada e declínio cognitivo. Dietas ricas em alimentos ultraprocessados, gorduras trans, excesso de açúcar e aditivos químicos favorecem esse estado inflamatório. Em contraste, padrões alimentares como a dieta mediterrânea, rica em vegetais, frutas, peixes, azeite de oliva, leguminosas e castanhas, estão associados à redução do risco de transtornos mentais.

Intestino e cérebro: o eixo da comunicação bidirecional

O intestino é um órgão central na regulação da saúde mental. A microbiota intestinal modula a produção de neurotransmissores, influencia o sistema imune e regula a resposta ao estresse por meio do eixo intestino-cérebro. Disbiose intestinal, permeabilidade aumentada e baixa diversidade microbiana estão associadas a maior incidência de sintomas depressivos, fadiga mental e alterações de comportamento alimentar (como compulsão ou falta de apetite).

Padrões alimentares e bem-estar emocional

A adoção de uma alimentação anti-inflamatória, rica em fibras, antioxidantes, fitoquímicos e ômega-3, associada à exclusão de alimentos que desencadeiam inflamações ou alergias individuais, pode melhorar significativamente quadros leves a moderados de ansiedade e depressão. Além disso, o ritmo alimentar, a mastigação, o espaço para comer com atenção e o vínculo afetivo com o alimento também têm impacto no sistema nervoso central e na regulação do cortisol.

Conclusão A nutrição é parte essencial da saúde mental e deve ser integrada de forma estruturada em planos de cuidado para pessoas em sofrimento emocional ou com histórico de transtornos psíquicos. Alimentar-se é, antes de tudo, uma forma de comunicação com o corpo, e essa linguagem pode promover regulação neuroquímica, clareza mental, estabilidade emocional e bem-estar. A prevenção e o tratamento em saúde mental devem considerar o prato como ponto de partida.