As diretrizes clínicas mais recentes — sejam da American Heart Association, ADA, APA, EULAR, ou OMS — convergem em um ponto: o tratamento de doenças crônicas, independentemente de sua etiologia (metabólica, cardiovascular, autoimune, psiquiátrica ou neurodegenerativa), inclui intervenções de estilo de vida como parte estruturante da conduta.

No diabetes tipo 2, mudanças alimentares estruturadas, aumento da atividade física e intervenções no sono são equivalentes ou superiores a fármacos em fases iniciais da doença.

Em depressão leve a moderada, metanálises recentes apontam que alimentação anti-inflamatória, exercício aeróbico regular e técnicas de regulação emocional (como TCC ou mindfulness) têm efeitos comparáveis aos ISRS em alguns perfis clínicos.

Na hipertensão arterial, ajuste na dieta, perda ponderal, moderação no álcool e atividade física reduzem pressão arterial em até 11 mmHg — o que equivale a uma medicação anti-hipertensiva.

Em doenças autoimunes, modulação do eixo intestino-cérebro, redução de estressores psicossociais, avaliação de sensibilidades alimentares e suporte nutricional com fitoquímicos e ácidos graxos essenciais já são incluídos em programas integrativos nos principais centros acadêmicos.

Em demência e envelhecimento cognitivo, intervenções multimodais envolvendo dieta, estímulo cognitivo, fortalecimento de vínculos sociais e rotina de sono têm efeito comprovado na preservação funcional.

Mesmo diante do avanço técnico-científico da medicina — com terapias-alvo, inteligência artificial diagnóstica e abordagens cirúrgicas minimamente invasivas —, a mudança no estilo de vida continua sendo uma recomendação presente em praticamente todos os guidelines médicos, especialmente no manejo de doenças crônicas.

Apesar disso, a implementação dessas mudanças apresenta uma paradoxal baixa adesão, tanto na prática clínica quanto na vida dos pacientes. Isso se dá não apenas pela ausência de políticas públicas estruturadas, mas também por um contexto psicossocial contemporâneo marcado por fatores que dificultam a autoconsciência e a autorregulação:

Jornadas de trabalho longas, que reduzem o tempo disponível para preparo de alimentos, prática de atividades físicas e descanso adequado.

Alta exposição digital e excesso de estímulos, que favorecem distração, impulsividade alimentar e padrão de sono irregular.

Individualismo e competitividade crônicos, que contribuem para o esgotamento emocional e o adoecimento mental.

Fragmentação familiar e urbana, que limita os vínculos comunitários, afetando suporte emocional e práticas coletivas de cuidado.

Cultura da medicalização e da solução rápida, que reforça a dependência de intervenções externas, em detrimento da construção gradual de novos hábitos.

Propor estilo de vida como intervenção baseada em evidências já é demasiadamente descrito, mas os nossos pares da mais elevada patente técnica da área médica chegam até a falar rápido essa parte nas aulas, congressos e cursos de atualização. Será que estamos investindo nisso o quanto é necessário para salvar vidas?

Intervenção comportamental efetiva, intimista e radical seria de que forma moldada numa consulta médica para que seja entendível e potencialmente aplicável por parte dos pacientes / clientes que buscam nossos serviços não só para que haja prescrição de alguma solução em drágeas, cápsulas, canetas (que a indústria se encarrega por nós com muita proeficiência e investimentos milionários)? Penso em alguns pontos, mas em complexidade, considero o último bem interessante.

Tempo clínico adequado

Escuta qualificada

Visão interdisciplinar

Equipe envolvida

— E uma ética relacional ampliada (Trata-se de não reduzir a consulta a uma entrega de condutas, mas cultivar uma relação terapêutica com potencial transformador).

Dra. Luiza Savietto, médica | CRM 146610